Quando descobri o que sou para Deus, a opinião da oposição a meu respeito, perdeu o efeito;quando me conscientizei do que Deus é para mim, dispensei intermediários...

EstherRogessi Estruturando Vida Através das Letras

"Há sempre uma razão de ser em cada amanhecer".

Textos

Experiências do mundo real
 
Capítulo I
 
     Hoje, dispo-me dos títulos, posição social... sou, apenas, uma cidadã brasileira e como tal, preciso ter em mãos o meu NIS, (CADÚNICO) Cadastro Único | INSS 2018. Esse Documento é de total relevância, para se obter aposentadorias e demais exigências documentárias, em outras áreas.  A busca pelo NIS, levou-me ao Posto de Atendimento “Bido Krause”, localizado no bairro: Totó (isso mesmo, Totó!) circunvizinho de Areias, onde resido, em Recife/PE. Diante de tal necessidade, e concisa da precariedade concernente ao atendimento público, nos postos do INSS saí cedo, às seis horas. Teria que enfrentar fila para conseguir a ficha de atendimento, no máximo, dez pessoas por turno, para necessidades variadas: bolsa família, NIS, documentação para creches, etc... . Saí de casa usando vestido simples, do jeito que gosto de estar em casa; sandálias rasteirinhas, sem adorno, sem maquiagem. Não queria chamar a atenção daquelas pessoas, tão simples.
     Os atendentes, desses postos se comportam de forma grosseira e desinteressada, para com o público, tratando-os como se fossem invisíveis... Esquecem-se de que os seus salários provêm de cada um deles, em toda regra há exceção... busco-a.
Ao chegar perguntei quem era a última da fila, para que me posicionasse no lugar devido; em seguida, chegou uma jovem senhora que me fez a mesma pergunta, respondi-lhe: estou com a ficha nº 09. Disse-me: – Então, sou a décima! Vou levar meu filho na creche e volto logo.
     Após longo tempo chegou outra jovem mulher: alta, magérrima, de aparência perturbada, com trejeitos elétricos... A cópia de uma pessoa da “pesada.” Olhou-me e eu não sabia se ela olhava para mim ou para a parede, pois era estrábica. Quando falou me certifiquei: é comigo! Perguntou-me: – Quem é a última da fila? Respondi-lhe: Há uma pessoa, depois de mim... – Cadê ela?  – Respondi: foi levar a criança na creche.
Continuou falando, enquanto o seu corpo balançava como se estivesse sendo açoitado por um vendaval: – Ah! Ela fique sabendo, que já perdeu o lugar! Eu sou a décima e ninguém me tira daqui! Não mermo! Porque se quiser me tirar “vai ter rolo e vai ter filme.Oia, só: a bonitinha sai e deixa o lugar guardado... Eu tombém, tenho fio e já deixei na creche e tô aqui! Ninguém me tira, mermo!  
Diante disso... calei! Pensei: ela está certa! Se existe fila é para ser respeitada. Uma fila não é feita de pessoas invisíveis, a necessidade nos obriga a cumprir regras. Estou pessoalmente, esperando resolver a minha necessidade momentânea; não pedi a ninguém para vir guardar o meu lugar, tampouco, subornei alguém; estou em pé, como todos. Não importa quem sou, títulos ou qualquer outra coisa.
     Tica se agradou de mim... Esse é o nome da personagem principal e real da história. Disse que o seu apelido é devido a sua extrema magreza... Que seja!
Muito à vontade conversava comigo me tratando por mulé! E, repetia a cada fala: – Né, mulé?
O linguajar de Tica é um arsenal de impropérios.
Enquanto a ouvia meditava: qual a culpa de ela ter um vocabulário tão pesado? É a sua realidade... O homem é produto do meio. Em certo momento colocou o dedo indicador na própria fronte e disse: Ah! Mulé, ninguém brinque comigo não... Eu tenho um parafuso froxo! Quem me conhece sabe!
     Falou de sua infância, dos maus tratos do pai e de tudo que presenciou, no tocante ao que sua mãe sofreu com o marido, até que o seu coração, não mais suportou... Contemplei a sua emoção, amor e trauma, pela perda de sua mãe.
     Graças a Deus, a mulher que guardou o décimo lugar... não voltou! Não cheguei a presenciar o “rolo e o filme”, que Tica promoveria, naquele lugar. Chegou a sua coleguinha de loucuras, então fiquei a observá-las e a pensar... Qual a diferença entre Tica, produto do meio, que jamais, teve oportunidade para estudar, adquirir cultura... A sua realidade, desde a sua infância, é formada por tapas, crueldade, estupros... e, linguagem chula. E, em contrapartida... os nossos governantes? Muitos deles, criados em berço de ouro, com formação acadêmica adquirida no exterior: Londres, Estados Unidos... Poliglotas, sem necessidade alguma, do uso de palavras e ações torpes e chulas, no entanto... A Operação da PF “Lava Jato”, cavou e trouxe à tona o linguajar chulo de alguns homens do poder governamental brasileiro, através do desbloqueio telefônico dos investigados, na corrupção do nosso país. Somos sabedores da forma de expressão que usam em suas intimidades. Há expressões decentes, que impõem respeito, principalmente, aos liderados. O que está acima dos demais, tem a obrigação de reluzir. Suas realidades são completamente opostas, sem qualquer razão para enxertos promíscuos, nas falas desses premiados pela vida.
     A educação que recebemos nos leva a dizer que fulano está sem sorte, enquanto, que Tica diz: fulano está fudido!  Quando levamos uma topada e gritamos por Deus! Ela grita: Porra!
Confesso... não saí com os meus ouvidos feridos, mas, agradecida a Deus porque, por momentos, convivi, com parte do povo desfavorecido em tudo; cheguei e saí sem títulos, sem nome... Com apenas, um número: ficha dez, que não prosperou. Não beijei, tampouco apertei a mão de alguém, mas dei atenção e as ouvi em silêncio...
     Às oito horas e vinte minutos surgiu uma atendente, que gritou: – Gente, atenção! Os funcionários não chegarão logo, estão presos no trânsito; quem precisar de documento impresso, não conseguirá! A nossa impressora está sem tinta; quando eu abrir o portão vocês pegarão o número do telefone desse posto, para ligar e saber se o motorista conseguiu a tinta da impressora. Só isso, gente!
     “Há sempre uma razão de ser em cada amanhecer.” Recebi grande salário, naquela manhã. Deus me concedeu um rico laboratório no mundo real. Do qual, adquiri histórias com H, para os meus escritos. Publicarei as minhas experiências, usando a linguagem real, que ouvi de Tica e suas coleguinhas de infortúnio... Cada palavra, sem eufemismos ou camuflagem...
     Quando saio, quer para perto, ou para longe, costumo deixar o celular desligado. Quem quiser me contatar de fato, retornará! Da mesma forma, o farei ao chegar à casa... Não perco o real, o contato corpo a corpo, com quem estiver ao meu redor... Enquanto Deus quiser estarei no planeta captando essências, que não permitirei suas extinções... Eu passarei, a vida passará, porém, a escrita permanecerá!
Tica, nem sabe que se tornou imortal.
EstherRogessi
Enviado por EstherRogessi em 06/10/2018
Alterado em 08/10/2018
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